sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O Adeus e a Memória




O texto que está na última postagem, Marujos - Locomotivas, foi o último que escrevi e será o último que publicarei neste pequeno e maravilhoso blog. Isso é uma despedida, amigos.

Me Lasco Todo Dia - Quando se dar mal vira uma arte. Este espaço muito peculiar da internet começou como uma página em branco pra um menino muito perdido e com uma dor gigantesca, lá em 2008. Não fazia ideia disso quando comecei, mas esse blog foi uma parte vital de reconstrução pessoal, após a perda de uma pessoa muito, muito especial. Maria Cecília, ou Marci (pra mim), ou Ceci (pro André), ou Ciça (pra turma da rua), faleceu em 2006.

Dois anos depois, ainda catando os cacos de mim, comecei a colocá-los em palavras. Aqui, bem aqui. Só em 2010 elas começaram a vir aos borbotões, misturadas entre ficção e realidade. Vi como isso me fazia bem. Me conheci, aprendi a usar minhas sílabas, entendi várias camadas de dor que eu tinha ao longo desses textos. E dez anos depois, após 117 crônicas e contos, vi que não havia mais o que ser dito. Não aqui.

Esse blog cumpriu sua função em mim. Do pior ao melhor texto, eu não mudaria uma vírgula. Então ele ficará pra sempre, como uma grandiosa e bonita memória de uma jornada incrível.

Agradeço aos surpreendentemente numerosos e em sua maioria desconhecidos leitores do Me Lasco.  Apesar de praticamente nunca ter divulgado meus textos (me restringindo a uma única postagem no meu facebook por texto), vocês chegaram e às centenas, em alguns anos passando de mil ao mês. Isso é muito doido. Não faço nem ideia do que encontraram nestas terras. Mas tomara que tenha sido tão divertido pra vocês quanto foi pra mim.

Até a próxima curva dessa estrada de ferro.
Choo-choo, disse o menino-trem.



Marujos - Locomotivas




2017

Eu acho (e acho como quem sabe que isso não é de muita valia) que o tempo todo eu sou mais de uma pessoa. Que essas vastas e inconstantes personalidades são queimadas como carvão, viram fumaça sem cheiro ou cor. Quero me misturar em todos através disso. Mas não controlo nada além das minhas próprias palavras. Não sou dono de mim. Sou o transe em que você entra quando escuta a voz da sua mãe. Sou o quarto fechado e empoeirado que você tem preguiça de abrir por saber que vai espirrar.

Gosto de esquecer de coisas  boas e que alguém que amo me lembre delas. Sou o meu próprio medo de apertar demais alguma coisa. E me sinto o tempo todo em um mar de papel. Tem horas que isso é lindo, horas em que é assustador.

Tenho problemas com a retidão da verdade. Mas nunca fui tão honesto na vida. Sinto a força disso. Só que ainda não gosto dela.

Cadafalso, a minha palavra. Me escuta, é importante. Fui eu, confesso. Outro dia, outro lugar. Aqui se faz, aqui se paga.

Não é que eu não me importei. O "oi" fez falta, sim. Mas eu estava preparado se ele não viesse, como não veio. As palavras têm um peso e uma força que nunca vou compreender de todo. Mas o instinto de proteção que criei, desse eu manjo. É baseado num jogo de probabilidades que inventei. Onde não espero nada de ninguém. Onde crio meu próprio ninho.

2018

Me forjei em alguém além de qualquer coisa que esperava. Sei nem dizer como. Mas agora, enquanto percorro meus trilhos e o vento sacode meu cabelo, eu estou sorrindo por dentro e por fora.

Meus amigos estão aqui, nos vagões coloridos e classudos, nas poltronas e nas cabines. Todos eles são um só comigo. Acenando pelas janelas, enquanto o mundo corre sob nossos pés. Somos tão amplos, tão vastos. Somos os pássaros dessa linda beleza americana. E o céu estrelado que nós cobre à noite é o refresco que a pele pede.

É estranho estar feliz, apesar de toda tristeza por dentro e por fora. É estranho ser feliz. Como se eu tivesse entendido e encaixado uma peça que achei que estava sobrando. E não ter que me explicar pra ninguém. E conseguir fazer quem eu amo feliz. Admirando a paisagem.

Sinto mesmo como se eu fosse uma locomotiva. Não o maquinista, a locomotiva em si. De ferro e aço, apitando por aí, fazendo os carros pararem pra eu atravessar. Charlie, the Chooo-choo. E também um trem-bala japonês. Até aqui, sou o último marujo, e um que ficou feliz em ser de terra. Mas que também sempre será do mar. Pera. Acho que eu sou o mar. Pacífico, passeando pela linha férrea.
Soa bem.

No horizonte, sem medo, o mar e o marujo e o trem.
Reluzindo em um só, na figura de um homem.
E este homem sou eu.



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O dia seguinte




As coisas rasas e simples são as que mais aparecem por entre as frestas da vida que levo na sua ausência.

Ontem eu gritei pelo Palmeiras, gritei campeão, como não fazia desde de 1999. Lembra que eu te disse naquele dia que Libertadores era muito mais importante que Campeonato Brasileiro? Eu menti. É como comparar beijos de amores diferentes.

Outro dia, num restaurante, eu ria até a barriga doer com amigos muito, muito queridos. Do outro lado do salão, numa mesa de canto, me deparo com aquela sua prima mais velha que eu odiava. Aquela do episódio do brigadeiro com goiabada. Ela me encarava com um sorriso triste. Mantive o olhar por alguns segundos e, com serenidade, ela ergueu um tico a taça de vinho que segurava. Acenei com a cabeça, de leve. Ambos sorrimos, confidentes. Testemunhas.

Decidi que vou continuar a vida sem ter carro, não faço nem ideia se ou quando vou tirar carteira, inclusive. Isso, eu sei, teria te feito gargalhar e gritar “QUEM É VOCÊ QUE TÀ VESTINDO O CORPO DO MEU LUCAS?”, como nos velhos tempos. Depois de tantos anos de sofrimento com falta de mobilidade, do tanto que eu disse que era um carro que me salvaria de uma vida tediosa... Quem diria... Tem a ver com sua partida? Não sei. Acho mesmo que não. Sei que, se você tivesse visto o que é um smartphone e o que é o Uber, ficaria boquiaberta, com aquela cara de bocó que só você e Zacarias dos Trapalhões sabiam fazer.

Adoro passar pela calçada em que você duvidou que eu escreveria meu nome, quando o cimento estava secando e a gente achava que violá-lo seria um crime federal.

Um dia, uns dois anos atrás, uma moça muito legal me convidou pra jantar no apartamento da vó dela na Vila Isabel. Era capaz daquilo ter ido longe, mas quando ela de repente me pegou pela mão e disse em um entusiasmo contagiante “Vamos dançar na varanda? Nem ligo se algum vizinho ver! O sol vai estar se pondo”, eu entrei em pânico. Nunca achei que alguém pudesse simplesmente repetir suas palavras. Essas palavras. Eu fui. Eu dancei. Foi um momento super bonito, até. Mas assustador também.

Parei na dona Zilá, que fez aquele forro na jaqueta do André que a gente rasgou. Inclusive, eu falei que a gente não devia ter tentado pular a grade. Mas você sempre foi teimosa. Enfim, parei lá pra ajustar umas camisetas. E não é que ela me reconheceu espontâneamente? E não esqueceu de você também. Muito doido, né? Minha mãe mal lembra de ti, eu desconfio, e é claro, ela não faz ideia da importância que teve pra mim. Mas uma costureira do Bandeirante sabe.

Algum dia eu vou conseguir parar de escrever imaginando quais partes você gostaria e quais você diria que são “sombras desnecessárias do que você quer realmente dizer",

O trilho do trem agora é meio pop. Um bocado de fotografo amador vai pra lá tirar foto. Tem muito mais fotógrafo amador no mundo hoje em dia.

Falando nisso, aquela foto que eu tirei de você dois dias depois da gente ter dado o nosso primeiro beijo agora fica do lado da minha cama. Não preciso dela pra me lembrar de como você era bonita. E, Iansã me acalme, você era bonita de todas as formas que eu posso imaginar. Ainda assim, ali é uma beleza calma que ficou registrada. Uma versão de ti que só conheci nos últimos meses em que convivemos. Gosto de olhar aqueles olhos.



domingo, 27 de novembro de 2016

Os anos




Não, não parece que faz tudo isso. E também parece que foi muito mais. Mas andei contando. São exatos dez anos.

Eu penso em você todo dia. Mesmo no mais repleto. Mesmo no mais vazio. A sua morte refez minha vida. E algumas vezes te culpei e odiei por isso. Que bobagem, não é? Tornar o maravilhoso que você me deu em uma coisa ruim só pelo fato de não existir mais.

Eu sou o seu fantasma, percebi. Eu sou o seu legado. Sigo seu evangelho. Sua filosofia.

Isso fez de mim um homem corajoso, eu sei, apesar de sempre amar em excesso. Inconsequente também, como você.  Fico orgulhoso quando acho seus defeitos em mim. Quando imagino as suas broncas. Com frequência imagino as suas broncas. Acho que você me daria duas hoje. Uma por eu não estar viajando como planejei. Falando de uma forma doce como os meus descuidos menores são importantes também, mas que eu não devia me cobrar tanto assim. Outra por eu ter fugido tanto de Brasília em dias 27/11 pelos últimos cinco anos. Seu temperamento firme teria aparecido mais agora. Você diria que não é uma bigorna pra cair na cabeça de nenhum Coiote como eu.

Eu já te pus em um pedestal, mas não durou muito e tem tempo que eu percebo com clareza os seus defeitos. A postura mimada, a necessidade de se impor, de ver o mundo como um campo de batalha. As seletividades, a teimosia, o desdém por crenças diferentes das suas. Acho que você teria revisto muito disso tudo com os anos, como eu. Somos fruto dos anos 90, essa era bizarra e imprevisível. Você poderia ter sido a mãe dos meus filhos, você poderia ser a razão de eu não querer tê-los.

Tenho certeza que você conservaria, no entanto, essa facilidade pra me exergar através de qualquer disfarce, com candura e firmeza. Suas duas características mais marcantes, apesar de tão contraditórias. Eu queria muito, muito mesmo, ver seus olhos me encarando na mistura dos dois de novo. Aquela hipnotizante verve que você sempre emitiu. Aquele poder emanando do seu corpo. Aquelas palavras que até hoje ecoam depois do meu:

- Eu... Eu te amo. Acho que te amo há muito tempo. Mas só percebi agora.
- Ah... Eu esperei dez anos pra ouvir isso, seu babaca.

Que um dia eu possa igualar esses dez mais dez e viver sem pressa de te encontrar.


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Véspera




Meu Novembro não começa no mês 11. Ali por Setembro ele já está me rondando, lembrando que ele vem. Tão certo como é errado usar tênis branco nessa cidade de terras vermelhas. A véspera é longa;

Ainda te sinto. Não como uma memória, mas aqui, completa, e posso te tocar em tudo. É uma tortura pra mim que você se espalhe pelo mundo, vazando. Nenhuma memória te cabe. Uma confusão de passos ao meu redor, todos brilhando, como os tênis de luzinhas que a gente cobiçava na infância. Tênis brancos de luzinhas.

Passo pela pitangueira que ela plantou há mais de quinze anos. Já está enorme, já tem até os moleques fiéis a roubar os frutos. Agora tá em flor. Eu não lembro se ela alguma vez sentiu o perfume de uma flor de pitangueira. Essas coisas me matam. Sinto como eu precisasse saber absolutamente tudo daquela moça.

Sinto como se eu tivesse que ser o vaso que te abriga. Meu corpo, seu latifúndio. Mas transbordo, não nego, volto quando couber.



segunda-feira, 18 de julho de 2016

Unhas nos dentes




Tinha um amigo na faculdade que me disse uma vez que ele não namorava porque não queria ter que terminar. Na época soou genial. Agora acho que afirmação mais boçal é difícil de produzir.

A gente termina o tempo todo.
Do supermercado favorito ao quase-amor. Foi quase. Tão quase... Mas falhou o atendimento, deu diferença de valor no caixa e, cara, alguém roubou o meu carrinho. Quem tem co-ra-gem de roubar o carrinho dos outros?

Um sentimento que não dá pra definir direito. Uma agonia desproporcional à questão. Como quando você corta mal  a unha e percebe que tem uma pontinha áspera, agarrando. Algo que poderia ser resolvido e nunca foi. Será que poderia? Tinha saída? Ela ainda se agarra. Mas já acabou. O inexorável futuro de agora. Nas lágrimas que ficaram pela roupa, as outras que vão cair no carro. As dores que me seguem, cão sem dono. Os contornos mal cortados dela contra o sol, na fumaça do cigarro que ela só fuma quando se sente muito, muito sozinha.

Me pego pensando em quantas vezes eu senti amor. Em quantas vezes fui amado. A conta deveria fechar, mas parece que nunca irá. É triste, bem triste, perceber as pontas ásperas.



quarta-feira, 27 de abril de 2016

Isso é sangue, não é tinta não




Passeando pelo quarto, ela disse que queria mesmo era um reembolso pelo dinheiro gasto com lâminas:

- Eu raspava as pernas todo dia esperando que você me ligasse.

Claro que não era o objetivo da Andrea arrancar uma risada dele. Mas a risada veio, com força e com coragem, porque sabia que chegava pra provocar um furacão.

- Para de rir, seu idiota! Tinha dias que eu saia do banho mais cortada que salaminho da padaria.

A gargalhada aumentou, beirando o incontrolável. Ele nem sabia direito o porquê de estar rindo. Mas o pequeno ossinho do humor em sua barriga estava se contorcendo.

- Cadê o homem que me faz ficar feliz? Ele tava aqui há pouco tempo.
- Esse homem, ele não te ama - respondeu, em meio as risadas.

E o riso então morreu. Porque graça não havia. Era desespero de um lado. E um coração partido do outro.





sexta-feira, 11 de março de 2016

Quatro pães de sal




Ele adora ouvir trechos de conversas de gente passando na rua, no mercado, no coletivo. É como uma colher de fermento pra imaginação do Diego que, acostumada, preenche o os vazios..

- ... aí você acredita que ele olhou pra Marta?! Babaca pra...

Completava do jeito que queria. "Logo pra Marta! Antes de ela virar astronauta ninguém espiava, agora que tá cheia de grana espacial da NASA a rapaziada fica encarando! Tsc, tsc". Fazia isso mentalmente na maioria das vezes. De vez em quando, sussurrava a resposta, seguindo na direção oposta, só pelo prazer da intromissão/ousadia lançada ao vento.

Hoje, foi um tico diferente. Na fila do pão, um homem falava no celular:

- ...assim eu num guento! Essas coisas deixa a gente doido, cara.

Retrucou sem se dar conta, distraído. 

- Por isso que o povo faz bobagem, né? - disse ele, surpreendendo quem estava em volta.
- Oi...? - balbuciou o homem, virando a cabeça pra olhá-lo.
- Todas aquelas vezes em que alguém sai falando das dores, de um jeito que o mundo não quer, sabe? Aqueles posts de sofrência gigantescos pós-término, ou as fotos de falsa felicidade pra estimular o recalque.
- Mas não é disso que eu tav...
- Ainda assim, dá pra entender. Quando você sente uma dor dessas e tal. Você não consegue colocá-la em nenhuma palavra, então sente a angústia de dizer milhares, pra muitos, pra todos. Palavras vazando, vazias. Não retém a dor, nem a dignidade, direito. Como se nenhuma sílaba dividisse, nenhuma métrica coubesse. Escravo da palavra, fala todas as que não deve. Curioso, não? 
- Cara... eu só tava reclamando do meu patrão aqui. 
- Ah, entendi. 

Depois de pedir seus quatro pães de sal, passando pelo corredor de frios e pagar em moedas pelo lanche, o rapaz sorriu. Constrangimento pesado à parte, ele não precisaria imaginar nada daquela conversa. E de quebra, criou a fila do pão mais reflexiva da história do município.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Alfabetização




Em uma conversa, um reencontro intenso de amizade, que não se limita a Domingos e suas lamentações, dois amigos. Cerveja de um lado, café do outro. Nenhum dos dois bebe nenhuma das duas bebidas. O pedido foi a essência daqueles homens no seu encontro: absolutamente profundos e sem nenhuma seriedade ao mesmo tempo.

- A gente às vezes aprende a ler quem está com você. Depois de um tempo, fica sensível naquele processo de avaliação, de mensuração. Na ausência de palavras, virei um garimpeiro de verdades obscuras... Queria eu que ela só falasse. Simplesmente me dissesse o que sentia, o que pensava, o que vivia. Assim eu evitaria as coisas que li quando queria ter sido analfabeto.
- “Pra aprendêêêêê a lêêêêêê, pra isso não tem hooooora!”. Lembra?
- Hahahahaha, sim! Melhor jingle do governo.
- Melhor. Continua, meu chapa. O que leu?
- A gente tinha uma pequena memória, bonita e pura, do início do relacionamento. Beijo no nariz. Não vou explicar demais porque você não merece.
- Justo. Essas coisas são íntimas e eu nem entenderia também.

- Grato. Pois bem, tinha o beijo no nariz, significativo e particular. E uma vez, depois de já termos terminado, eu ressuscitei essa lembrança. Beijinho no nariz. E ela... ai, ela deu um meio sorriso reto. Sabe? Quando a pessoa aperta os lábios na hora de sorrir, a boca vira uma linha continua e sem contornos. Nela, eu sabia, era misturando a tentativa de ficar feliz com uma tristeza escondida. Doeu.
- A tristeza escondida?
- Também, também. Mas eu acho que mais o fato daquilo, tão inocente e feliz, ter se transformado. Não estávamos mais juntos, então eu revi as probabilidades. A maior delas... Ela ter usado o beijo no nariz com outra pessoa e ali, se sentido mal com isso.
- Com razão?
- Um ato delicado e único que foi moldado cheio de amor entre duas pessoas, utilizado com outra? Sim. Muito errado, inclusive com quem recebeu esse gesto. Pode ter sido qualquer outra coisa também. Ela pode ter se lembrado que não tinhamos mais aquele amor ingênuo, pode ter associado o beijo aos momentos ruins, sei lá. Contudo, não é disso que eu tô falando, velho. Apontar dedos, sabe... Passou. Graças a Deus, haha!
- Eu entendi. O momento se perdeu.
- Isso! Se perdeu. Era algo que poderia ter durado pra sempre, como todo gesto de amor genuíno. Esse beijo no nariz poderia ser um sinal através dos tempos, uma bóia de felicidade nos mares de memória, pra que a gente se segurasse mesmo depois que eu e ela estivéssemos em outras vidas. Eu poderia me apaixonar milhares de vezes, isso não mudaria. E ali, finado-velado-enterrado, num processo fúnebre que aconteceu só no meu coração.

- Cara... Isso é bonito de tão triste. Mas parece ser parte da vida. Como um pudim de leite que se espatifa no chão antes de você pegar uma fatia sequer.
- De laranja! O de leite a gente ainda pode achar na padoca.
- Ou de chocolate com nozes! Já viu?
- Não, nem sabia que existia.
- Vou te levar na casa da minha mãe pra você ver.
- É nóis.
- Guarda mágoas?
- Sei lá, acho que não. Tem muitas outras bóias de felicidade nesse mar de memórias. O coração aqui já ressuscitou o amor, como você bem sabe. Tanta coisa aconteceu de lá até aqui...
- “nanana... dois caminhos, refaço o nó pra nos unir”.
- “Nasce de novo, todo dia faz, toda vez, que vejo você”. E aquele seu amor?
- Nha, não deu. A verdade é que não era amor.
- Que houve?
- Ela disse em uma frase a expressão “ângulo de vista”, sem zueira, falou seriamente aquilo.
- Estranho.
- Demais! Nem ângulo de visão, nem ponto de vista. Não fez sentido. Aí, não deu. Terminei.
- Cara...
- O que?
- Você é um idiota. E por isso eu te compreendo perfeitamente.

Ambos sorriram e finalmente deram um gole em suas bebidas que odiavam. E mesmo quando saíram, tarde da noite, o gosto daquilo tudo não tinha ido embora. Cafeína, lúpulo, alfabetização.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Assassinos




- Você sabe como ser bonito!
- Hahaha, ok, me explica isso.
- Você é bonito, claro. Mas tá longe de ser arrogante. Não fica inseguro perto de mim. E olha que sou uma armadilha com sotaque.


Ela está me mantando em seu coração.

Hoje, dá pra sentir pelas palavras escassas, pela distância que não é só física. E eu, sentado em minha cadeira robusta de madeira na varanda da casa, assisto com uma expressão de desolação irônica. Eram altas as chances disso acontecer, não eram? Não sou um apostador. Então quando entro no jogo, entro pra perder.

Invadi aqueles ventrículos e átrios, fui um choque anafilático, o sangue venoso que ainda não sabe por quais veias correr. Tudo tão rápido, tão taquicardíaco. Agora, lentamente bombeanto em suas funções regulares, vejo meu espaço encolher. Como se a minha mansão nesse miocárdio tenha que minguar até que o quarto-e-sala onde estou agora desapareça. Em um infarto fulminante eu nasci e morro por insuficiência cardíaca. Se encerram os blips-blips do monitores. Blip, Blip.

O peso do amor, do começo, sim, eu sabia. Assim como nunca me enganei, aqueles hectares musculares tinham outro morador. Cohabitat. Ela pode se amarrar em terra firme, se firmar em seu inquilino de longa data. Não sei, não sou.

Naquele abraço perdido em um corredor do meu apartamento, nus e em lágrimas, ela sentia saudade daquilo que não tínhamos vivido. Como aproveitar um amor em antecipação, esperando gritos e sonhos não realizados, cortes profundos em estômagos rasos de tamanha ansiedade? Como ser um humano se caminhamos vazios um do outro, no nosso afobamento linear de quem não pensa no futuro? Fomos do agora, um agora que já passou.

De vez em quando, sussuro os trechos entrecortados de Walt Whitman.
"This wind is our deepest bond. And I wish things had started before they finished".

Eu estou matando-a em meu coração.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Fisio-pé-travessia




O infravermelho arde na pele, seca tudo por debaixo da pele. Apesar da mocinha perguntar, de tempos em tempos, se tá quente demais, Hermes não cansa de repetir o "está tudo bem". Nunca quis ser um velho reclamão e manteria o sorriso, ainda que isso lhe rendesse uma queimadura leve.

Gostava daquele lugar. Não era como um bospital, cheio de gente morrendo. Tava mais pro lar de pessoas que se agarravam na vida. Alguns jovens, muitos velhos como ele. Problemas nas mãos, nos joelhos, nas costas. Uma loja de dores variadas, um arsenal de luzes e pesos e choques anestésicos.

O pé dele latejava. Queria caminhar mais longe, pular mais alto. Mas a idade não era a desse tempo. Aprendeu a se contentar com as flexões do coração, ainda elástico, que desenvolvia paixões subitas por temas novos e mulheres mais aind. Aprendeu a domar o peito e, apesar das queimaduras leves ali também, sorria. O pé ficava pronto pra novas travessias.

O homem, deus grego da mensagem, um homem. Não se fazem mais Hermes. Nem Adamastores. Nem carburadores. O tempo é engraçado, feito de fores, dores, o alívio que vem de rancores, estirado, jeito com cores, hóstia sagrada nas mãos do pastores. E rimas fracas. O tempo precisa do calor de um infravermelho, pensou, olhando fundo dentro da luz escarlate.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Espumas ao Vento




Tirando as coisas da mala, Clara pensava no emprego novo a na vida que se assentava, até agarrar um pedaço de plástico mole e frio. Gritou e recuou, achou primeiro que fosse um bicho infiltrado na bagagem. Pegou a vassoura. Mirou direitinho e aplicou toda a força. Mas depois de quatro vassouradas firmes no local e 10 minutos de observação cautelosa, foi, pé ante pé, checar que diabos era aquilo.

Escondido entre duas toalhas, um pote de sabonete líquido. Não era exatamente seu, mas um pseudo-presente daquele amor recém rompido. Ai, fisgadas! Ali, qualquer ser humano entende o que sentem as carpas preciosas, os marlins brutos, quando pegos pelo anzol do pescador de lembranças. Puxados pra fora do seu habitat, respirando o ar gelado. O cheiro daquele sabonete... o cheiro dele. O que a gente faz com isso? Podia ter dado pra alguém, qualquer alguém.

- Vou dar é porra nenhuma! Eu preciso de sabonete. Descolo uma daquelas esponjas. Forte, serei o "Velho e o Mar", pra que Hemingway narre meus contos de dor e fúria contra o inevitável. Serei poética. E limpinha também, que esse negócio ainda serve como esfoliante!

E na prateleira do banheiro ficou o vidro, e usado foi o sabonete. Na primeira vez, Clara sentiu cada lufada daquele perfume. Lhe emaranhava na alma, trazendo o bom do amor a galope pro box minúsculo. Ainda assim, enfrentou a dor da perda durante o banho. Como Elza Soares, cantou "Espumas ao Vento" chorando de dar dó. Mas não deixou cair uma gota de sabonete no chão.

Em uma das vezes, usou com a sobrinha, que se sujou toda de tinta guache. Glup. Outro dia, uma amiga precisou de uma ducha pós-balada. Glup. Naquela semana terrível de trabalho, ficou um tempão debaixo do chuveiro. Glup. Quando o novo date veio passar a noite, a água correu entre os dois com calma. Glup.

Um gole depois do outro, foi assim que a vida bebeu todo aquele líquido. Ela se deu conta em uma manhã comum, de um banho comum, do conteúdo do vidro em seu último suspiro. Ficou com os olhos estáticos, perdidos naquele pedaço mole e frio de plástico nas mãos. O perfume dele ainda emanava dali... Não, não era mais o perfume dele. Era da sobrinha, da amiga, do date, dela. Levado pela água, em memórias distintas, a dor da perda cicatrizando um pouco mais. Tudo era ele. Nada era ele. Se dissolveu na pele.

Jogou o pote fora, se ajeitou pro trabalho. No trem, sacode-pra-lá-sacode-pra-cá, o celular tocou:

- Oi, Clarinha! Como você tá? Vai hoje lá nas meninas?
- Oi! Vou sim, tá tudo lim... hahahahahaha! TUDO LIMPEZA! Hahaha! Pera aí, já te ligo.

Riu sozinha por mais quatro estações antes de retornar o telefonema.


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Inclusive...




Eu tô olhando pra você.

Mas é só uma foto, então não sei se vale.
Mas não é exatamente uma foto, é apenas uma imagem no computador.
Mas não tenho computador aqui, tudo isso está na minha memória.
Acho que eu tenho uma memória intensa.

Inclusive pro que não se olha. Lembro do gosto do seu perfume, da textura da sua voz.

É engraçado como a gente ama parecido e diferente ao mesmo tempo, né? O sentimento é tão familiar e sempre tão novo, tão único. Amei mulheres, lugares, momentos. Amei tempos, homens, pequenos objetos. Palavras.

Fui sutilmente perdoado esses dias. De erros profundos daqueles dias turbulentos, consegui pedir desculpas. Não por mim, mas pelo respeito que devo a quem se feriu pelas minhas facas. Parece que o perdão veio de volta, pela corda bamba, a seu próprio jeito e forma. Existe amor nisso também.

A sua gratidão me semeou por inteiro. Lembro do bom antes de tudo, quase sempre. De quem eu deixei ficar e de quem eu tirei, inclusive. Tô longe, em uma aventura na cidade cinza. Que a gente odiava, lembra? Agora outros amores me ensinam a gostar cada vez mais daqui.

E o amor, nessa rosa de cores em profusão, parece ser cada vez mais o branco de Oxalá dessa sexta-feira.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

100oooooooor




- Tem maca? Só vou se tiver maca.
- Que isso, cara! É uma baladinha.
- Você não tá entendendo, quero sair de lá inconsciente. Mas gosto de ser carregado com conforto.
- Um brinde a isso!
- Mazel tov!

As cores vem e vão pela noite sob aquela tenda de batidas agudas, alternadas. Tinha o cidadão cantando a plenos pulmões, arrancando da garganta toda poeira de semans de ar-condicionado no serviço. Como é minimalista, o mundo da curtição noturna... tantas luzes disfarçando laços sendo construídos e desfeitos, Observar é como pegar a pipoca e ir passear no Zoológico: não dá pra ter certeza se é bom, mas é certamente interessante.

E selvagem.
É cada beijo.
Olha que frenético.
Será que eu danço divertido assim?
Se der mole, vou mandar uma coisa bem jovem pelo Whatsapp.

- Sabe o que eu não entendo dessas escritas de Whatsapp?
- Não, o que?
- O "socórrrr". É meio chatão, parece que tão chamando minha tia Socorro.
- Você tem uma tia Socorro?
- Não, mas poderia ter.
- Eu nunca vou entender o "100ooooor!". É bom, mas muito vanguardista..
- Como é isso?
- Tem esse post. É de um moleque do meu Muay Thai. No Facebook ele atende como Markinhos Malkriado. Sim, dois "k"s seguidos. Aí ele posta foto com pacotes de dinheiro. Tal qual apreensão da Polícia Federal, sabe? E o primeiro comentário era "100ooooor!".
- Realmente. Vanguardista.

Acaba o batidão, entra um DJ de bigode. Bom sinal. Se tem bigode, sabe o que tá fazendo. Nem que seja cagada, será uma consciente.

- E a Marina?
- Não vai andar. Não tô na dela.
- Nem pra dar uma chance?
- Cara, ela veio pra mim ontem, disse "quero te ver!". Eu achei que fosse o trecho de alguma música do Kid Abelha.
- 100oooooooooor!
- É. e bota um socórrrr nisso aí.

Distribuíram serpentinas; Começou a tocar Los Hermanos das antigas. Largamos as bebidas e fomos dançar. E assim como começou, sem nexo e colorida, a noite continuou pra nós.


domingo, 1 de novembro de 2015

Saudade Bruta




Sentado aqui na minha janela, em reflexões movidas a chocolate quente, percebo.

O jogo não acaba. "Que que ela pensaria?", "O que ela ia dizer?", "Quem ela seria?". Da ausência só vive saudade bruta. Advinhar a pessoa impossível. O tempo te mudou em todos os beijos que não te dei. E sinto falta de quem você poderia ter sido.

Sem me dar conta, uma vez te decifrei e te expliquei da melhor forma imaginável.

- Me fala um pouco sobre ela... Como ela era?
- Ela... Ela era uma força da Natureza.

Em cada ponto cardeal, Gaia, visceral e selvagem, te venero.

Novembro. O primeiro dia foi de chuva, e acho que foi bom, um dia bom. Você teria gostado. Você sempre gostou. Você está gostando, só pode. Afinal, eu vejo seu sorriso, reconfortante e precioso, por todos os lados.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Detetive




É engraçado como a gente vira detetive, pensou Sérgio, enquanto arrumava a casa. Era um tal de achar cabelos, de perceber cheiros, de esbarrar em provas cabais de que ela esteve ali. Esteve, presente, não um leve passar. E a vassoura se emaranhava com um brinco esquecido, vinha o sorriso de canto. Aquilo parecia ou uma estratégia gasta, ou um descaso muito grande com jóias. Já tinha devolvido uma pulseira, um anel e três chuchinhas de cabelo.

Levando o lixo pra baixo, toma uma intimada do porteiro.

- A menina saiu que nem um furacão, sinhô Sérgio! Tá com muito fôlego pra alcançar aquela ali, hein? Hahahaha!
- Para de ser sem-vergonha, Aroldo! Nem venha com intimidades.

Mas por dentro riu. Era como se um tratamento novo estivesse sendo desenvolvido pra uma doença que não se conhecia, nem tinha cura. Um admirar calmo que preenchia tanto, alegrava tanto.

Que sofrimento de ausência dá no peito quando se olha fundo no espelho do banheiro... Os amores rondando, tubarões, famintos, enquanto ele nadava em seu córrego de ingenuidade. Fotografou, colheu digitais, concluiu: estou no meio do caminho. O amor não foi, o amor não veio. O amor está, e se transformando, a beleza das suas míriades e rapsódias fica completa.

O anteparo do querer. Sem se preocupar, sem expectativas. Sérgio estava vivendo seus ajustes. Parecia um motorista de caminhão dirigindo um fusca. Tudo automóvel, tudo diferente.

Sentou no sofá e admirou o brinco. Estava divertido ser detetive. Ainda mais à procura de uma coisa que nunca perdemos.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Amarelo-queimado




A gente acorda um dia e se dá conta que aposentaram uma cor.

Sem FGTS, sem abono pela insalubridade. No meu tempo, o amarelo-queimado trabalhava duro. Era tudo o que o amarelo comum não podia ser. Sóbrio, sem essa pinta animada demais que o amarelo normalmente tem, sabe? É isso. Um amarelo mais tiozão do churrasco. O amarelo que não precisa de Red Bull.

Não sei se ele disfarça com outro nome. Tal qual o lilás, que atua sob pseudônimo de 'roxinho' hoje em dia. Li esses dias sobre um homem que usou um drone com barbante pra arrancar o dente da filha. Sim. Tem isso acontecendo. Até isso. Mas nada do amarelo-queimado.

O que será dos sobretons, eu não sei. O girassol não vai ter suas sombras, o sol também terá que se contentar com o laranja em seus raios. O ouro não parecerá real. É tudo menos sólido, menos vívido. Como se o mundo tivesse esquecido que um pouco menos de brilho às vezes nos dá perspectiva. Aqueles cantos que não eram maravilhosos precisam ser revelados, as falhas e hiatos, expostos. O amarelo-queimado é uma lupa. É a verdade que falta ser encarada. Tem dias em que eu me pintaria inteiro com ele.



sábado, 29 de agosto de 2015

Marujos - Submarino no horizonte




Parecia uma dupla de homens tentando instalar uma máquina de lavar. Não era. Era filosofia profunda camuflada de trabalho braçal. Chaves de fenda e veda-rosca estavam ali como qualquer objeto poderia estar. Navegávamos.

O quanto desse homem há em mim?

Tem ali muito de contemplação do mar. Reluzente, o sorriso sobe e desce em compasso. Apesar de tantas falhas flutuando, isso pelo jeito nunca muda. Quando ele chega cheio de alegria, inesperado e abrupto, todas as velas se abrem, histórias emanam. Tantas e tão incríveis que ninguém sabe onde começa a verdade e acaba a ficção. Como aquela impressão imprecisa de um periscópio lá longe, traindo o submarino no horizonte.

Há tempos eu não tento mais descobrir o que foi e o que é falso, a questão não me preocupa nele. Na verdade até fascina. Mergulho mil léguas naquele que é raso em alguns pontos, abissal em outros.

Não acho que se esconder assim seja vício, parece ser parte. Uma couraça enferrujada e imponente que se perdeu em mares profundos de si mesmo, na ânsia de maravilhar. Só de emergir à superfície levanta suspiros, espalha as águas turvas. E cada palavra trocada, do abraço até despedida, tudo tem significados e desdobramentos. Códigos em morse que só nós entendemos.

- Disse "egoista!", mesmo eu tendo me oferecido a me afastar, deixá-la recomeçar e ser feliz com outro, enquanto o amor rasgava meu peito. Shiva, lembra?
- Shiva, o Deus da Morte.
- Ganges em meus ombros, tanta dor sem lar.
- Ó, sou acusado de muita coisa que realmente sou, inclusive de egoísta, que só admito ser pra mim. E agora pra você. Você é diferente disso, não é um egoísta.
- Não sei. Sei que com ela eu jamais fui.
- Deslizou?
- Só se tentar ser feliz com outros, em outros, para outros for deslize. Depois de tudo acbado. Eram só remendos, eu sabia. Quem não tem direito de tapar furos no balão com os dedos, mesmo sabendo que não vai dar certo?
- Drift não é derrapada, filho.
- Quando você me chama de filho, soa estranho que só a porra.
- E de babaca, caí melhor?
- Sem dúvida.
- Fogo-fátuo.
- Sim, fogo-fátuo.
- Em todo ser humano, a necessidade de se esquivar. Lembra quando você era o Esquivo? Filho, você já teve tantos nomes...

Eu nem recordava disso e como ele, logo ele, lembrava eu não faço ideia. Teve mesmo um tempo em que eu me disfarçava de tudo.

- Por que você mente tanto, pai?

Ele riu um riso triste, o canto de um lamento.

- A mentira ou a verdade são escolhas calculadas. Sou folclore em você e em todo mundo que eu conheço. Dói mais não saber quem é seu pai ou descobrir que seu pai não é quem você gostaria? Sereias existem. Você quer provar que é real sendo uma, como eu já fui. Quantos corações magoados nós deixamos pelo caminho nessa busca... Incontáveis. Não interessa que você emocione, encante, doe, compartilhe. Se não tem fato vai ser visto qual falsidade, é assim que o vento sopra. Independe das quilhas que use, ficção é uma coisa e mentira é outra. Você não fez essa pergunta pra mim, filho. Você fez essa pergunta pra si mesmo.

E é claro que fiz a pergunta errada. Desde o início, não é o que tem dele em mim. O marujo insólito da família, um mistério inexorável ou apenas o homem comum e falho. Em um só, dois. A pergunta... qual é a pergunta...

Quanto deste homem é o que é e quanto dele é o que eu inventei?


domingo, 26 de julho de 2015

Denúncia: Jovem-correria, a verdade revelada!




Roteiro BLOCO 3
(*escrito à mão, na lateral da página, "Alguém avisa o Robério que isso que ele chama de maquiagem tá ridículo. Menos pó pra dentro do nariz, mais pó nas olheiras")

RODA VINHETA.
RODA TRILHA FEITA EM TECLADO DE CHURRASCARIA.


ABRE CÂMERA 2. SOLTA O TP. VAI ROBÉRIO.
- Uma realidade surpreendete! (ENTRA O PRIMEIRO "PAM").
- Chocante! (ENTRA O SEGUNDO "PAM")
- Assustadora! (ENTRA O "PAAAAAM" FINAL E PROLONGADO).

CORTA PARA CÂMERA 1

- O jovem-correria se esconde bem na sua cara, cidadão de bem. Um sujeito que passa despercebido. Não, não é como o mendigo ou o bêbado da esquina. Esses você olha, se tiver compaixão sente uma dor no peito, e então pensa "É problema do governo ou de alguma outra pessoa que não eu".

- Já o jovem-correria é sim de rua, porém treinado na sorrateira arte da camunflagem social. As estatísticas só resvalam no seu corpo indefinido e coberto por DRO-GAS. Sim. Eles compram na Renner. Riachuelo. C&A. E pasmem. Na Otoch. Mesmo com anos de menos consegue emprego se dizendo "estagiário". E só foi descoberto pela nossa equipe por ter feito o elevador da TV travar com excesso de passageiros. Veja na reportagem!!!

RODA VT.

Mochila de nylon, calça jeans da feira, camisa pólo sem jacarezinho. O jovem-correria é um indivíduo com hábitos peculiares. Até hoje especialistas só sabiam que ele completa o shampoo com água quando o produto tá no finzinho. Descobrimos que ele também escreve "xampú" ao invés de "shampoo", entre outras verdades impactantes.

Você sabia que é ele o responsável por toda essa bagunça de passe estudantil, por exemplo?

Muito da invisibilidade do jovem-correria está na capacidade de acumular sub-empregos. Estágio é o mais comum. Mas volta e meia o jovem-correria tá com alguma coisa pra fazer rolo, seja dele ou de "um conhecido". Avon, brigadeiro, Herba Life, pen drive ou salada de fruta. Tem também aquele bico de operador de telemarketing, produtor de eventos dos vizinhos, estoquista em loja e o clássico rapaz do xeróx.

Nos hábitos de consumo, a ilegalidade corre solta: em seu celular, todos os episódios de séries televisivas populares como Game of Thrones em baixíssima resolução. Mal dá pra saber que o anão é um anão, de tanto pixel. Também é fácil achar músicas dos vândalos incitadores Emicida, Criolo Doido, Marcello Gugu e MC Guimê. Dá pra ver só pelo nome que ninguém dessa trupe presta.

Outro detalhe que surpreende no jovem-correria é a capacidade de sempre morar em lugar que tem enchente. Repare bem nessa imagem feita em Itaquera. Tá vendo boiando aquela apostila xerocada de faculdade feita à distância? Indício claro de que tem jovem-correria ali.

"O sentido da vida é pá frente!", frase comum entre essa gente, é só uma entre muitas expressões que vão te ajudar a identificar o sujeito. Preparamos um pequeno glossário. Veja.

- TÔ AJUDANDO UM PRIMO A VENDER ESSES PEN DRIVES.

- VOU TER QUE FAZER ESSE CORRE PRA FECHAR O MÊS.

- ESSE ANO NÃO VAI DAR, MENSALIDADE DA FACUL SUBIU.

- COLEI LÁ NA BATALHA DE MCs, CUSTOU SÓ CINCÃO PRA ENTRAR.

- A MARMITA É MINHA MÃE QUE FAZ, EU SÓ COMPRO AS COISAS.

VOLTA ESTÚDIOABRE CÂMERA 1. SOLTA O TP. VAI ROBÉRIO BABACA! QUEM ESCREVE O ROTEIRO É ESTAGIÁRIO QUE MORA NA VILA ZILDA, SEU BOSTA.

- Muito esclarecedora essa matéria, gente. É importante acompanhar essas curiosidades da nossa sociedade, esperamos agora que esse povo ganhe dinheiro e cultura pra melhorar nosso país.
A gente tem que acabar com qualquer tipo de rolezinho, que tira a paz do trabalhador brasileiro, e tenho certeza que esse jovem-correria tá sempre lá. Sem nunca ter praticado um hipismo, estourado uma champanha. É falta de oportunidade que esse pessoal sofre.

- Agora vamos falar de coisa boa? Tem creche nova para seu cãozinho também em Moema! Veja na reportagem!!!


sábado, 18 de julho de 2015

Marcha Atlética




Um dia desses eu ia embora do trabalho, o que quer dizer que eu caminhava.
Olhos no chão, cansaço.

Do meu lado veio uma menina. E o perfume dela me abraçou como a um velho amigo... Quando levantei a cabeça ela já tinha me ultrapassado. Dei de cara com suas costas, espáduas firmes do mistério. O cabelo caia em uma cascata suave de fios pretos, sacudindo pra lá e pra cá no ritmo dos passos. A distração musical do meu headfone ou o efeito hipnotizante do perfume dela a deixaram dez passos na minha frente. E dá-lhe pernada. Se ela tivesse um papel com números no peito, certeza que estava competindo em marcha atlética.

E eu ali, no meu rumo e torci que ela fosse pelo mesmo. Curioso. Não sei, essas coisas que dão. Ela parecia ser bonita. Não, é quase isso. Parecia ser alguém que eu deveria saber se era bonita. E ao mesmo tempo em que ficava feliz por tê-la indo pra onde eu ia, malditos dez passos atrás!, ou corria pra olhar o rosto da criatura ou caminhava o mais rápido que podia pra alcançá-la.

Me senti o clássico perseguidor de sobretudo nos filmes, o vilão de uma história em quadrinhos. A cada esquina dobrada achava um detalhe novo naquela silhueta. Uma nova pista. Olha ali, ela anda tão duro, os passos ecoando. Elegante. Tira o cabelo dos olhos, mas não é neurótica com o vento. Gente assim tem que ser bonita. Não tem? O que eu acho bonito mesmo... É ser bonito. Tá bem, me perco com frequência nas ciências que crio. E quando ambos estávamos no mesmo ponto, o de ônibus, vi minha chance.

Ela chegou lá já esticando pescoço, fez sinal com o dedo, se misturou no bolo/fila. Levou sete segundos pra embarcar. Sete. Estaria ao lado dela em quatro, se quisesse. Mas fiquei ali nos meus dez passos de segurança. Minha cabeça substituiu o "distância" por "segurança" sem que me desse conta. E por que?

Olhei placidamente quando ela colocou uma mão na bolsa, tirou o dinheiro da passagem, entrou pela porta, sumiu. Olhei placidamente meu desejo de descoberta partir com naqueles momento. Me conheci um pouco melhor ali, sem me preocupar com beldades em pessoas ou no mundo. Queria a beleza daquele pedacinho de história em mim. O olhos e lábios e sorrisos eram menores que a preciosidade de seguir com a pequena dúvida. De ter vivido a beleza, mais do que olhá-la. Como a magnitude que antecede o ato: o arco em riste com flecha retesada antes do disparo, aquela coragem que dá antes de partir pra jornada, o medo que vem antes do primeiro beijo.

É ser bonito. E escolher um bom perfume, claro.


Quem sou eu

Minha foto
"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravatas/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus? O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte" - Dos Três Mal-amados, Palavras de Joaquim - João Cabral de Melo Neto