sábado, 12 de novembro de 2011

men from the boys




Uma frase.

Eu estava lá, caminhando. Não que o "lá" seja desinteressante, é a segunda cidade do mundo que mais me encanta. Londres. A Londres dos esquilos na primavera. Eu desci as escadas do metrô, sorri ao ouvir a voz ao fundo que dizia calma e sedosamente:

Please mind the gap between the train and the station

Mãos nos bolsos que tava um pouco frio. Caminhava olhando pra baixo, pensando em um monte de coisa e em nada ao mesmo tempo. A importância do biscoito recheado pra raça humana, o quanto aeroportos são frios, desolados nacos da terra de ninguém. Daí um moço esbarrou em mim, pediu o polido/apressado "sorry" dele e foi-se embora, deixando o meu rosto levantado de surpresa. Não pelo esbarrão. O esbarrão só me fez olhar pro lado.

Lá estava. Uma frase pra mudar meu mundo. Em um cartaz enorme na estação de South Kesington, que não era propaganda nem nada, só um fundo branco de dois metros de altura por dois metros de largura que dizia...

men from the boys

E ao lado da frase, uma foto. Duas pernas finas de garoto com os pés dentro de sapatos de homem adulto. Foi um tiro no peito. Porque naquele momento, naquele instante eu vi que não era mais um menino. Não. Eu sou um homem agora. Feito.

men from the boys

A gente passa por num tanto de coisa no caminho da vida, não é? Sofri tanto quanto você nesse tempo todo de labuta. Tive minhas tragédias. Alguns dizem que foram grandes, outras disseram que não valeram de nada. Eu só digo que foram tragédias, como quaisquer outras. E daí eu sofri, como você já sofreu. E me levantei depois, me sentindo um bosta, como você se sentiu. Eu era um menino. Você também. Nós eramos meninos, eu e você, não nega, vai.

Crescemos. Precisei cruzar meio mundo e ver essas palavras impressas pra enxergar isso com a crueza necessária. Notei a falha entre o trem e a estação. Pequenos filmes de memória. Sabe? Aqueles feitos com VHS na sua cabeça de anos 90.

men from the boys

"Você consegue, Lucas. É metade menino e o dobro do homem." Não era isso que ela dizia? Era.

men from the boys

Compras do mês, contas pra pagar, expedientes e salários, responsabilidades e contar histórias. Amar. Amar aos borbotões. Corresponder ao mundo e, ainda assim, sem precisar de expectativas pra acabar com o coração. Nada disso me faz um homem. Me fiz homem com o tempo.
Minhas pernas já doiam depois de vinte minutos olhando pras pernas que balançavam. Minha cabeça fervilhava, a frase reverberava e ecoava. Se expandia pelo corpo. Até me preencher.

Me encontrei como homem adulto. Passei a ver a vida como um homem. E essa loucura de poses e privilégios em ser um homem. E aqueles pés de menino soltos.
Fui embora, entrei em um trem. As luzes piscavam como um farol que sinaliza o tempo, pro barco ao longe que vem pra terra. Sacudindo de leve, o som do vagão era um acumulado de murmúrios e sussurros. A frase foi se assentando no seu lugar e já preencheu a lacuna que eu tinha comigo mesmo. Só sobrou um pensamento bobo. Os pés do garoto. Hum. Alguns sapatos são mesmo difíceis de se preencher.

Please mind the gap between the train and station.



Quem sou eu

Minha foto
"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravatas/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus? O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte" - Dos Três Mal-amados, Palavras de Joaquim - João Cabral de Melo Neto