Hoje uma onda forte me acertou. Isso acontece às vezes, não é mesmo? Um momento de inércia, em que a vida nos alcança, nos atinge em uma esquina e a gente fica como que não pode fazer nada. Estático, inerte. E sentindo aquela onda dominar nosso corpo, nossa alma.
Me anunciaram, quase como se eu pudesse me preparar para o baque. Bobagem, a onda não se pronuncia e não se define. Ela tem sua vontade, pois a onda é feita da própria vida que vivemos, das escolhas que fizemos, das marcas que deixamos.
Queria poder soltar, gritar, esbravejar contra o tudo. Queria ser o sopro do mundo, a verdade escondida, o último Power Ranger de pé pra lutar contra as forças do mal e sair com as glórias, mesmo que derrotado. Mas a derrota para a onda nunca é gloriosa. Porque lutar contra ela é não respeitar quem comanda a onda. E por mais que ela te afogue, você só pode abaixar a cabeça. Respeitar o que a onda traz. Tentar levar pra casa, além do sal que gruda na pele, algum aprendizado. Como um soldado Ryan pra chorar por seu capitão sacrificado. Como eu, um bobo tentando fazer as mazelas da vida parecerem engraçadas. Quando a onda acerta, só resta o riso fraco.
Ontem eu estava revendo um filme importante pra mim. "Mais estranho que a ficção", no original em inglês, "Stranger than fiction". É um filme que me diz muito, particularmente, mas é claro que pode ser um grande saco pra você. E é claro que se for um saco pra você, você se torna meu inimigo automaticamente. Dados os avisos, o filme é sobre um cara comum e o seu relógio, que passam a ter suas vidas contadas e controladas por uma escritora. Harold Crick e o Fistwatch.
Mentira. O filme é sobre como a gente muitas vezes é acertado pela onda. A onda que arrasa com a gente, que traz o amor, que leva o amor, que não te considera filho, que te ama como irmão, que é o Soldado Ryan, que é um bobo piadista, que te destrói os sonhos, que constrói um desejo, que te lava a alma, que te tira a alma com uma cartada, que te deixa um meio-sorriso, que te faz um novo homem, que deixa uma cicatriz que lembra a forma de uma foca, que abre um pacote dos correios, que te dá uma balinha de hotelã.
Que é um relógio marcando o seu tempo, o meu tempo. O tempo engatinhar, do jeito que eu sempre quis.
Eu não tenho mais relógio. Acho que é hora de ser como Harold Crick.
E quem puder, se alguém puder... segura minha mão?
Se dar bem é se lapidar com o bom do mundo. E aqui, nas lascas que ficam, ficção e realidade misturadas em cada sílaba.
domingo, 16 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Vale-tudo
Acordou com o peito arfando, se é que chegou mesmo a dormir. Desde que Vítor deixara de lado o vício pelo picolé, sofria essas crises de abstinência noturnas, que o devoravam por dentro. Sentia falta de cada sensação daquela gelada gostosura.
A textura que flutuava em sua boca, o gelado que gruda nas bochechas, o gosto doce de qualquer coisa artificial. Mastigar o palitinho depois de terminar, huuummmm! O coitado estava num estado que não podia ver nem gelo que já suava. Tonteava quando ficava frio e se contorcia quando pegava a via que passa pela praia. Praia, como todo mundo sabe, é quase um safari de picolés. O elefante é o SemParar, evidente. Ouvi falar que os vendedores de picolé de praia começaram a revidar as estilingadas batendo com as máquinas de cartão de crédito nos caçadores.
Enfim, o Vítor. Chegou em um ponto tão crítico que não houve jeito, levaram ele pra se consultar num psicanalista. Não foi difícil, falaram pra ele que lá ele podia atacar um Frutilee sem remorso.
Dr. Genivá, que não era psicólogo de brincadeira, logo deitou Vítor em no divã. Com uma chave de braço, naturalmente. Psicanalista bom, hoje em dia, tem que saber lutar vale-tudo pra sobreviver no mercado, é essencial.
Vanja vai, vanja vem, o Dr Genivá foi descobrindo a origem do vício. Vítor tinha aprendido a gostar de picolé mesmo depois de namorar a Silvia. A sua antiga paixão era filha do consul Agilberto Trabuqueira, e era conhecida como a mulher mais fria do pedaço. Quebrava pescoço de galinha pra fazer canja e nem fechava o olho. Era de dar medo.
Silvinha adora picolé. E ela ajudou Vítor a comprar sua geladeira nova. Advinha qual era a marca da geladeira? É isso aí, Consul. Vítor via a geladeira, lembrava da ex, do picolé, e ficava doido. A sensação do picolé era a sensação de Silvia. A textura, o grude, o doce, a mordida.
Ele não tinha nenhum vício bacaninha. Tinha era uma puta dor-de-cotovelo mesmo.
Dr. Genivá deu-lhe uma banda e disse a Vítor para voltar na semana seguinte para tomar mais sopapo. Pra aliviar a dor-de-cotovelo, ele ia fazer doer em outro lugar até o coitado esquecer onde doía primeiro.
Eu não disse que o vale-tudo é essencial no ramo?
sábado, 27 de março de 2010
Shaolin
Agora há pouco me deram a notícia.
"Mataram o Shaolin", disseram. Depois de quase 21 anos em que o vejo andando pelas ruas da minha cidade, pelas pedras da minha rua, pelas ruas da minha rua, pela minha vida. Mataram o bêbado da minha cidade. Me mataram também.
Ele era um bêbado à moda antiga, sabe como é? Desses que vivem cantando alto na rua de madrugada, dá bom dia pra todo mundo... Que dizem falar coreano e que viajam de espaçonave toda primeira terça do mês. Brigava com os ônibus, brigava com os butequeiros, brigava com a alta do dólar. E uma dessas brigas o matou. Com mais de vinte facadas.
Perdi o meu bêbado amigo. A minha cidade perdeu um Shaolin, que com tantas histórias pelas ruas da minha vida, pela minhas ruas da vida, perde também um pedaço do meu passado que morava naquele homem.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Selvas de pedra e corações roubados
Eis que Cassiana queria cruzar Brasília a pé. Dizendo Brasília quero dizer Plano Piloto, que, para todos os efeitos, é o que os brasilienses entendem por Brasília. Mas mesmo reduzindo arbitrariamente as proporções de Brasília para dentro das duas asas, a tarefa da Cassiana não é das mais leves. Essa menina, evidentemente uma representação feminina do jovem que vos escreve, já que me acho muito cabeludo ultimamente e acho que ser uma bela e graciosa moça deve ter lá suas vantagens. Exemplo: Carla Perez e o poder que a bunda tem. Bom, o assunto é constrangedor e vamos morrê-lo por aqui, certo? Ponto final.
Voltando a minha psique feminina, a Cassiana. Ela vai rodar, esse final é óbvio, e você sabe disso porque todo mundo sempre roda nas minhas estórias. Descarrego minha dor nos personagens, pronto e acabou. Vamos ao motivos do insucesso de minha protagonista:
1. Brasília é o barro: A capital federal na verdade foi toda feita de barro, o concreto do Niemeyer foi tacado por cima só pra dar uma guaribada e disfarçar a peraltice. Quem anda pelo Plano sabe muito bem disso, já que é impossível caminhar mais de 500 metros sem sujar, no mínimo, sua sandália havaiana genérica (sim, porque se você tem uma havaiana original, você não deveria estar a pé). Mas os pés são o de menos.
Calças e mais calças se perdem, meias vão direto para o lixo, camisetas brancas ficam manchadas e tome Omo Multi-ação para corrigir a traquinagem dos pioneiros. Eles são o orgulho do Núcleo Bandeirante, olha que beleza.
2. Brasília é o off-road dos pedestres: Ainda bem, porque Cassiana realmente queria caminhar nas matas do cerrado. Acontece que Brasília tem calçadas com a qualidade das ruas de Gaza. Isso quando tem calçada. E o mato ainda é dos mais chatos, parece feito de mãozinhas que agarram seu jeans com ferocidade de guerreiros pigmeus. Isso transformará a caminhada de Cassiana em uma grande e retumbante tortura, já que o esforço vai ser bem maior do que o que ela tinha calculado.
3. Brasília é plana o caralho!: É plana no asfalto, mas vá lá andar nas entre-quadras. Além das irregularidades naturais do terreno, tem até prédios que criaram seus próprios morrinhos para se instalarem acima dos meros mortais. Mas Cassiana não liga para essa tentativa ridícula de manter a privacidade dos moradores e anda a vontade por dentro dos blocos.
Pilotis foram feitos pra isso, e os moradores é que morram secos esperando que eu (perdão, ela) dê a volta para não invadir seus bem-valorizados pisos. Piso que funciona comigo é só o salarial, e isso porque eu não tenho escolha.
4. Brasília foi feita em U: “Leves curvaturas nas asas do Plano, formando linhas suaves e simples”. Não sei se foi exatamente isso que o maroto Niemeyer falou a respeito, mas tenho certeza que foi algo do gênero. O que ele queria dizer, realmente, é que “Fiz esta joça em U. Vão dar a volta, losers”. Isso significa que a coitada da Cassiana vai bater muito mais perna do que imagina. Isso porque ela vai ter a impressão de andar em linha reta, mas na verdade vai estar caminhando em um gigantesco U de mais de 12 quilômetros.
E se ela tentar ir em linha reta, coitada, vai enfrentar mais mãozinhas de pigmeus que qualquer explorador australiano já encontrou nos desertos.
5. Brasília, está mais do que óbvio, não foi feita para os pedestres.
E é aí que Cassiana, assim como eu ou qualquer um dos milhares de sem-carro que existem nessa cidade, toma conhecimento da horrível verdade. Que ou o capeta do Niemeyer simplesmente não pensou nos pedestres, ou Brasília não foi feita como deveria ter sido. Andar pelo Plano Piloto é lutar contra o bom-senso. Eu sei disso pelo mesmo método que a Cassiana vai usar: andando. Já cruzei o Plano de todas as maneiras que Descartes sonhou em seus Planos. Já fui da 311 Norte até o Núcleo Bandeirante, na maior prova de que o homem é feito de força de vontade e testosterona abundante. Já andei do CCBB até o Pátio Brasil algumas vezes e ir da UnB para a Rodoviária é banalidade pra mim. Eremita certificado, baby.
E espalho isso por todos os cantos, pois é motivo de muito orgulho, sim senhor. Não tenho nem patinete, my brother, e ainda assim sobrevivo na falta de esquinas dessa cidade. Nem sempre, mas às vezes andando, já que os ônibus daqui também são motivo para criar uma guerrilha urbana. Selvas de pedra e corações roubados, é uma realidade meio cruel, mas é a que temos. Sem tirar nem por. Um mar de fantasias sustentadas por vias largas e a impressão de que é tudo planejado, já que quem mora no Plano (quase) sempre tem carro.
Eu e a Cassiana só temos jogo de cintura.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Esboços sobre o amor e a linguagem 2
Um conhecido meu, Jaime e evidentemente fictício, tinha uma frase-sucesso para os momentos de descontração. “Se eu conheço o amor é porque conheci a bunda da minha mulher”, e o dito era seguido por um coro de aprovação. Pasmem as pessoas honradas/dignas do século XX, mas sempre que Jaime falava isso em uma roda, o coro vinha. As feministas, quando escutavam, armavam suas unhas para a guerra. Citavam os sutiãs flambados, a luta das mulheres ao longo dos séculos para conseguirem direitos iguais aos dos homens e as novelas do Manoel Carlos que invariavelmente contam uma estória de amarguras e superações femininas.
Mas o Jaimão tem uma arma poderosíssima ao seu lado. O poder que a bunda tem. Você sabe e eu sei que onde existe bunda existe o joinha nacional. Qualquer setor de serviços populares, quando explora a bunda, enche a poupança. Com o perdão do trocadilho. Onde quer que exista uma vaga para mulheres, a bunda é ponto crucial na contratação:
- Essa moça aqui é um achado, fala três idiomas e tem duas graduações. E está começando, não vai nos exigir um grande pagamento.
- Mas o fundo de investimentos dela, como é?
- Fraco, não cobre nem a inflação.
- Ah nem, então dispensa. Funcionária mesmo era a Glorinha.
- Aaaah, a Glorinha.
E ficam pensando nas nádegas da antiga e laboriosa trabalhadora.
Jaime sabe muito bem dessa realidade tupiniquim e vai espalhando o amor que sente por sua bunda, digo, sua mulher, por onde passa, sem dó. Atirando a bunda para todo o lado, Jaime já estava quase no faroeste, mais perigos que Lee Van Cleef. Se a coisa apertava, ele sacava logo a bunda e lancetava seus adversários. Nada ficava no caminho da bunda. Ele chegou até mesmo a fazer um seguro escondido da retaguarda de sua amada. Sabe como é, se vem uma nova recessão e leva a bunda, como ele fica?
Ao chegar em casa um dia, Jaimão se deparou com uma cena estranha. Para ele, claro, porque nós já vimos esse conto milhares de vezes. Ruídos estranhos vindos do quarto, um par de sapatos de homem na entrada, o ar pesado da traição. Entre furibundo e medroso de ter perdido a bunda, Jaime correu para o quarto, não sem antes se armar com a primeira coisa que viu. Que, no caso, foi um guarda-chuva do Barney, propriedade de sua filha. Ao chegar na cama do casal, sua esposa se engalfinhava furiosamente com outro ser. Para sua surpresa, era uma mulher. Ou quase isso, não sei. Eu diria que gênero é algo muito flexível na atualidade e eu é que não vou me meter no assunto.
Ao ver aquilo, Jaime se desconcertou:
- Mas Glorinha, o que diabos é isso?
- Ahn, Jaime... Essa é a Edimar. Ahn...
- Depois desse tempo todo de casamento... e com uma mulher!
- Ora Jaime, você falava tanto de bunda que resolvi ver se gostava...
- Já sei, daí resolveu experimentar e eu dancei, certo?
- É, mas primeiro tentei com outros homens.
- Má quê???
- Cê não tem bunda, né Jaime?!
- Dancei.
- É, mas depois.
- Má quê???
- As bundas de homens são cabeludas, não me interessei. Resolvi tentar com mulheres.
- Aí eu dancei.
- Ainda não.
- Má quê???
- Você sempre soube que gostei de você porque é liso. Não financeiramente, claro.
- Má q...
- Pára com isso! Que saco.
- Desculpa, prossiga.
- Não fui de bunda.
- Como assim?
- Achei sem graça, sabe? Gostei mais dos peitos.
- E aí?
- Aí, você dançou.
Assinar:
Postagens (Atom)
Quem sou eu
- Lucas Doca
- "O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravatas/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus? O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte" - Dos Três Mal-amados, Palavras de Joaquim - João Cabral de Melo Neto