O meu sonho se passa alguns anos antes do seu.
Se dar bem é se lapidar com o bom do mundo. E aqui, nas lascas que ficam, ficção e realidade misturadas em cada sílaba.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Meu sonho foi diferente...
O meu sonho se passa alguns anos antes do seu.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Conselho
Ela girou os calcanhares, num bailado leve, e em menos de um segundo estava de frente pra mim.
(05/10/2014)
Hoje eu sei.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Esboços sobre o amor e a linguagem 1
Um dia eu ouvi em algum lugar que escrever com amor é amar de um jeito estranho. Não entendi bem naquela época. Agora acho que não entendo mesmo é de jeito nenhum. Tentar falar de amor com letras impressas parecia uma incongruência para mim, isso é fato. Ou era fato. Malditos tempos verbais. Sempre achei que o amor devia ser sentido em todas as dimensões, em todos os toques e cheiros e gostos e sussurros que são possíveis provar. E a escrita é fria, eu acho.
Quando comentei sobre isso com um grande amigo, que pode ser ou não fictício, ele disse suavemente “mas que merda é essa que você está falando?”. Segue o que o camarada me explicou, da melhor maneira que minha memória consegue resgatar:
- Às vezes você fala umas coisas que me deixam triste, Doca Nii-san.
- Ué, o que tem de mais? Acho que o amor não se diz escrevendo, só isso.
- E é aí que você manda mal. Você pensou na sua forma de dizer e não na forma com que os outros entendem.
- Desenvolva, velho chato.
- Se você diz, a pessoa é obrigada a apenas escutar. Pode retrucar, mas aí já vai para o diálogo, que não é do que estamos falando aqui. Agora, se você escreve, a pessoa lê e interpreta. Ela adapta a sua visão à visão que ela tem. É obrigada a preencher as lacunas com suas próprias experiências.
- Então você quer me convencer que escrever o amor é o certo, e não falar?
- Não, Doca anta Nii-san. Estou dizendo que não existe certo ou errado. O que existem são as linguagens. Você as usa de acordo com o que quer dizer e com o que espera do seu interlocutor.
- Aaaihn. Make sense.
- Agora leve esta voad com você para casa.
- Voad?
- Voadora Dragão. Toma!
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Flerte
Há umas semanas atrás abriguei o Formiga lá em casa. Não, não precisa se esforçar. Esse não é o Formiga que você conhece. Esse Formiga eu acabei de inventar.
O Formiga me contou uma coisa interessante que aconteceu com ele. Diz o Formiga que estava mal com a Claudinha, sua paixão. Formiga é metido com jogo do bicho (trocadilho, eu sei e eu gosto) e a Claudinha ficou furibunda quando ele gastou o salário na Mula. Deu zebra. Claudinha botou o apostador pra dormir no sofá e não quis saber de conversa.
Então vinha voltando o Formiga do trabalho, cansado e já prevendo chuva de prego novamente quando chegasse em casa. E deu-se que, ao entrar no coletivo, Formiga viu uma mocinha bonita, que lhe chamou a atenção.
Maroto que é, ele se aproximou um pouco e ficou perto da menina, em pé ao lado do banco dela, a observá-la com cuidado. Sentado junto a mocinha, um enorme ser bombado conversava, demonstrando interesse principalmente pelo decote da dita. Típico do ambiente de transporte de massa.
A moça tinha qualquer coisa da Claudinha, mas Formiga não sabia dizer o que. Ficou a observar a menina pelo reflexo da janela, para não dar bandeira. A cada palavra que ela trocava com o bombado, Formiga ficava mais intrigado.
Como o Formiga é dos meus (feio, pobre e mora longe), a viagem foi longa. A mocinha, em determinado momento, olhou pela janela e viu o olhar doce de Formiga sobre ela. Sorriu, de coração aberto, pela estratégia do rapaz, de olho do reflexo. Formiga sorriu de volta. Se olharam frente a frente, ambos ignorando perigosamente o bombado entre eles. Formiga percebeu que estava no seu ponto e seguiu para saltar do ônibus, ainda sorrindo, e sorrindo foi até entrar em casa.
Dias depois do episódio, o meu amigo veio de malas prontas se hospedar na minha residência. Disse que tinha largado a Claudinha, que precisava de uma semana de refpugio. Eu dei só por ele ser imaginário. Quando perguntei o que houve, ele primeiro não soube responder e depois se explicou.
- Percebi que a Claudinha não é minha paixão, Lucas.
- Mas como isso agora, Formiga?! Você é doido pela Claudinha, até tatuou o nome dela no peito, com o "nha" contornando o mamilo.
- Pois é, mas encontrei a verdade.
- Que papo de crente é esse?
- Flertei com uma menina no busão, meu amigo. Por dois segundos, vi o que me deixava doido pela Claudinha. Quem ela já foi. O passado me encantou pela Claudinha. O presente me deixa na mão.
Achei graça e a história muito estranha (Formiga nunca foi filósofo), logo o malandro não me enganou muito tempo. Passou a recusar caronas todos os dias e comprar vale-transporte aos quilos.
Hoje em dia a turma toda sabe que ele anda de ônibus a torto e a direito pra usar a cantada do reflexo.
domingo, 10 de janeiro de 2010
De futebol e mulheres
Futebol é terapia. É ou não é? Muitas mulheres não entendem que, para o homem, jogar futebol é tão terapêutico quanto ir à manicure ou conversar com a melhor amiga.
Comigo não é diferente, o futebol é a minha maior terapia. Futsal, principalmente.
Quando entro em quadra, o resto do mundo some. Só existe a bola, o gol, o meu time e o adversário. Tudo o mais é uma grande segunda-feira.
Sessão nº 439 de terapia: Lucas Doca tentando entender as mulheres e achar o seu chute de esquerda perdido
Horário: 23h49
Alonga, solta a bola na quadra.
-> Não acredito que fiquei três horas discutindo por sms.
Controle de bola, algumas embaixadinhas.
-> Não acredito que eu tô procurando as desculpas dela mais uma vez!
Chute longo, cruzado. Longe do gol.
-> De onde diabos ela tirou essa história? Não tava dando em cima da outra, de ninguém, que saco!
Corre pra bola, carretel... fail. Melhor começar pelos chutes mesmo.
-> Queria que ela tivesse falado comigo, pelo menos. Me ignorar, depois de tudo, é ultrajante.
Chute rasteiro no canto, perfeito.
-> E a outra? É só uma amiga, ué! Eu gosto dela.
Bola aérea, de primeira ou deixo quicar? Demorei demais, melhor sempre dominar e chutar.
-> A outra é a favor da diadura, pelamor de Jeová? Como pode alguém tão doce ser a favor disso?
Drible rápido pela esquerda e chute. Quase joga a bola na rua.
-> Será que com o tempo a outra não muda isso? É fato que democracia é o caminho correto!
Chute do meio da quadra, bola parada. Boa! Tô pegando o jeito.
-> Mas que merda! De tanto ela falar, agora a outra não sai da minha cabeça.
Primeira tentativa de canhota... horrível. De novo.
-> Gosto demais dela, não existe outra. Não ainda. Não aguento mais brigar.
De novo a esquerda... tenebroso. Será que eu consigo?
-> Odeio me sentir assim, não fiz nada de errado, que diabos!
De novo a esquerda... talvez se eu tentar de trivela.
-> As duas são lindas, ela e a outra. Que eu faço?!
Trivela de esquerda... TÁ LÁÁÁÁÁÁÁÁÁ! É ISSO! RECUPEREI MEU CHUTE!!!
Chego em casa, após a terapia, às 24h30. Corpo acabado, tomo um banho e vou ler um pouco antes de dormir. Dan Brown, só pra pegar no sono mesmo.
Mas mesmo depois de tudo isso, da sessão de terapia, do cansaço, de Dan Brown, do meu chute perfeito, só consigo pensar uma coisa antes de dormir.
"Porra, mulher é uma merda!"
Quem sou eu
- Lucas Doca
- "O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravatas/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus? O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte" - Dos Três Mal-amados, Palavras de Joaquim - João Cabral de Melo Neto