quinta-feira, 11 de abril de 2013

Rei Godofredo III




São milhares deles, um exército que marcha de noite com seus longos bigodes. Os macios. Os gatos que me chamam, me cantam e que morrem na minha varanda, secos do amor que eu não dei.

Amor que ficou com o que foi, amigo da criança que eu fui. Tive um deles, fui um deles. Sorrateiro e de rua. Caminhante, fui noite até a noite acabar. Quantos gatos morreram em mim? Desenhados em ângulo de patas que a vida não permite. A morte subverte a geometria de forma tão vasta, tão varanda.


Galopam nos meus sonhos. É crescente a lua minguante que a Alice usou pra me assustar. E de repente acordo, chorando suor. De quem era aquele gato? É preciso ser propriedade enquanto gato pra garantir a sobrevivência, hoje em dia. E eu sou homem de quem? Se preciso de interrogação ao fim dessa linha, não sei dizer. É tudo uma grande primeira pessoa coletiva. Eu somos. Os gatos que sofrem, as pessoas sem dono. Tem alguma coisa aqui. Não tem? Quase dá pra pegar com as mãos. Não é pergunta, é qualquer coisa de expressionismo alemão.


Gatos combinam com nomes alemães. Então por que esse não foi morrer na Alemanha? Não, precisou ser na minha varanda. Pra mostrar que a morte não é uma pergunta. A morte é expressionismo alemão. O bom censo que não dá conta desses dados. Os macios.


O fim do gato não foi o zelador vir bater na porta. Perguntar onde a varanda ficava, colocar o corpo do bicho no saco de lixo, falar que a vida na rua é triste, descartá-lo. O fim do gato ainda não veio. Aquele pobre coitado vai ficar aqui, como um alucinado miado mudo. Aquele gato agora é meu pra sempre.




quarta-feira, 3 de abril de 2013

Que esse dia não seja nunca!



Que esse dia não seja hoje.

Completo três anos longe do lugar em que nasci, no dia em que nasci. Parece muito mais, uma vida inteira. Parece que não pertenço mais. O mundo me devorou e tinha tanta fome que nem deu tempo de por ketchup.

Eu ligo, escrevo, lembro. Mas o meu chão agora se move e a gente tem que navegar esse bote, baby. As pessoas quebram em mim como as ondas do meu mar-paisagem. Ah, as saudadinhas. As saudadonas.

Um dia elas vão se perder também...

Ainda vai chegar o dia em que eu e você seremos velhos de verdade. Embrutecidos, cansados, contempladores. Sem querer ir a nenhum aniversário e roubando vela do bolo. Sem paciência pra música alta, risada alta, gente alta. A gente ainda vai encolher. Lembrar do antes e não do agora. Confundir o nome do filho mais velho com nome do nosso irmão mais novo, depois com o do afilhado mais velho e por fim com o do cachorro.

E vão nos chamar de velhos por causa da idade, e não por trocar uma noite de tuntz-tuntz por um sofá quentinho com filme. E a gente vai falar bem do tuntz-tuntz e criticar o que quer que a molecada esteja escutando. Porque música, ah!, música mesmo era Soweto.

Que esse dia não seja hoje.

Reclamaremos em reuniões de condomínio. Vamos usar expressões em prol da risada do filho. "Brodagem". "Desejo mais é que ele pise descalço num Playmobil". "Você tá pagando vexa, fióti". A gente vai fazer pipa pro neto. Vai contar histórias e estórias, e elas vão se confundir a ponto das diferenças, ficção e realidade, não terem mais nenhuma relevância. Não pra gente. Eu e você. Poderemos dirigir a 20 km/h em qualquer rodovia que corta esse Brasil. País rico é país com muito velho.

Tudo será um desrespeito, tudo será desordem, todos os valores avacalhados. Especialmente os valores. A gente vai usar muito a palavra "avacalhado". Vou precisar mudar meu nome, talvez você o seu. Não existe Lucas velho. Assim como não existem mais Onofres jovens.

Que esse dia não seja hoje.

Talvez todas essas bobagens estereotipadas que engolimos sobre a velhice tenham mudado. Talvez não tenhamos mais medo dela. Nós dois. Talvez o novo velho do futuro tenha 120 anos. Quem sabe a gente descobre como lidar com a ideia da morte. Ver e ser morte. Chamá-la pra festa, só com a obrigação trazer o que for beber. A gente não vai ganhar aposentadoria pra sustentar porre de ninguém!

Que esse dia não seja hoje. Sim, eu adoro repetir esta linha. Que esse dia não seja hoje. Quero que você troque o "parabéns" por esta frase no tal do meu dia, pelo menos aqui comigo. Aqui, agora. Sobreviver é uma vitória, sim. Mas quero que você deseje juventude por essas 24 horinhas. A nós. E nos anos que vierem, todos eles, pra ver se ela sobrevive em algum lugar. Todo 3 de Abril. Eu e você.

E a Júlia, gritando, lá no fundo:

- Que esse dia não seja nunca!


quinta-feira, 21 de março de 2013

Versão Oficial




Estava difícil carregar o pacote de compras. Além dos ingredientes para o almoço, Caio também levava dois litros de leite pra noiva. A rua era sempre lotada por ali, contudo estava especialmente cheia para um sábado comum. Pensou que devia ter ido pela ruazinha lateral. Tarde demais, se empacasse naquela muvuca seria pisoteado por algum argentino. Começou a ouvir sons na praça, guitarras, batucadas e metais em riste. O epicentro do aboletamento. Parou pra ver, parte da roda, espremido entre turistas e nativos que fazem a atrevida Ipanema ser o que é.

O jazz vinha de uma rapaziada não muito mais nova que ele. A música feliz saltava pelo quente ar carioca como uma lufada de brisa do mar. A praça dançava em timidez de pés batendo, estalos de dedo, cabeças sacudindo. Aquilo era tão bom, era tão Londres, era tão casa pra ele. A coisa ia se alastrando no corpo. Há menos de trinta segundos, nada além de transeunte. Agora tinha sido enfeitiçado, o sorriso que não saia do rosto. O único desconforto era a ausência de letra naquela música: lhe negaram o direito de cantar. Por que não podia ser um deles? Queria ser alegria, queria não ter um pacote de compras rumando para um canto que não era seu. Às vezes é tão difícil se sentir parte...

A saxofonista o encarou. Olhos nos olhos. Veio destilando seu solo, impiedosa, passo a passo. Quando estava a distância de uma sacola de compras, encerrou a música. Ele agora não era mais roda, todos se afastaram com o caminhar da moça, exceto Caio. Hipnotizado, era agora destaque.

Ela tirou o instrumento dos lábios e lá estava um sorriso. Estendeu as unhas alaranjadas, entre os dedos um encarte quadrado, o EP de sua rapaziada musical estrangeira. O rapaz não sabia bem o que fazer, levou um segundo até começar esticar o braço livre de pacote vagarosamente rumo ao encarte. Mas ela ainda não tinha terminado. Colocou o bocal nos lábios e soprou uma nota longa, clara, que fez saltar de dentro do sax uma margarida.

A flor flutuou por um instante até ser agarra pela outra mão de unhas alaranjadas. .A multidão fez "Ooooooun!". Ah, a coletividade. O sorriso dela aumentou enquanto engatilhava as próximas palavras.

- Choose, ma chère.

Um frio subiu pela espinha de Caio. Nenhum homem está preparado para um ultimato assim, em praça pública e antes do almoço. Em barriga vazia, qualquer sopro ressoa como furacão.

Chegou em casa levando o EP no bolso. Contou à noiva que tinha ganhado de uma saxofonista francesa na rua. Esses gringos tão cada vez mais atiçados, meu amor.

Mas não pronunciou uma palavra sobre flores e escolhas, apesar de ainda ter o cheiro de margarida na palma da mão.



domingo, 3 de março de 2013

O peso do amor dos outros




Ouvi a moça dizer "eu te amo" e acabar com um possível amor. Foi tão rápido, tão doloroso, tão constrangedor. Eu ali, comprando o Globo na banca, e ela olhando pro homem grisalho com olhos impiedosos de quem não tem mais o próprio coração.

No rosto dele veio a resposta, susto de "Ai, meu Deus!", tão cruel e tão honesto que jamais poderia ser recriminado. Talvez tudo o que ele quisesse fosse amar também, só faltou aquilo que não tem nome e ninguém sabe onde é que fica, ninguém viu ou deu bom dia, nunca votou e não paga imposto, aquela coisa que desperta e faz sentir infinito.

Escondo os olhos no jornal enquanto pago, o jornaleiro disfarça contando o troco. Se conhece bem o pesar das testemunhas, dos dois no meio do caminho. E lá se vai um crime sem perdão que é justo deixar impune.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Suaves brevidades.




Por às vezes me pego refletindo sobre as suavidades. Já parou pra pensar nelas?

Ficavam a onze passos para o Norte de onde você estiver, com tantas levezas que o vento leva tudo. As levezas se espalham, tomam conta, infiltram e integram. Suavidades fazem parte de quem cruza os seus caminhos.

Elas têm sorrisos entre palavras que não nos pertecem e que desafiamos, em meio a tardes na cama e manhãs no sofá. O tempo passa sonolento. Suavidades não. Sorrateiras, te ajudam a dormir pra ficarem acordadas, te olhando viajar pelas confusões de sonhos. E nessas horas sorriem também.

São sempre discretas. Com batons invisíveis e vestidos de flor, suavidades dançam sem serem vistas. Tímidas, são o que são sem nenhuma enganação. Suavidades são mais honestas que vó do interior.

Gulosas e com estômago de passarinho pro que não gostam. Mas se gostam é de sorvete. E não muda nada se é de pequi ou Maracujá & Manga da Haagen-dazs, elas devoram até gelo com sal. Na maior fineza, sua brutalidade popular máxima é uma rapadurinha boa..

Suavidades se perderam e por às vezes me pego pensando onde foram parar, naquela curiosidade sobre o que fez parte da sua vida e agora parece cada vez mais um lembrança apagada. Hum. Como uma fita K7, uma nostalgia boa e engraçadinha, mas que não se tem mais onde tocar. Fico pensando no tempo que faz anos, ou se era realmente suave como a lembrança marcou. Fico pensando.


*O texto acima é uma releitura de uma mensagem escrita em 2009.


Quem sou eu

Minha foto
"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravatas/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus? O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte" - Dos Três Mal-amados, Palavras de Joaquim - João Cabral de Melo Neto