segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Quases

Rafael é o dono da ótima padaria do meu bairro. Acorda cedo, sempre com um plano. Amassa sua farinha, leva fornadas de pães de queijo para o balcão onde estão seus fregueses, felizes e famintos pelo prazer de devorar algo que deu muito trabalho pra outra pessoa fazer. E é o brilho assassino no olhar dos que chegam o maior temor do padeiro.

Ele sofre de pesadelos terríveis. Está assando um sonho (ahá! pega essa ironia) delicioso, o cheiro é inebriante. Saliva na porta do forno enquanto espera. De repente, estrondo. Corre pro balcão e vê, com os olhos arregalados, a horda de clientes famintos que invade seu estabelecimento comercial, honesto, com alvarás em dia e que contribui para elevar a renda per capta do país. São dezenas, centenas que entram. Zumbis clamando por confeitos. Eles têm veias saltadas no rosto. Passam por cima de Rafael, comem o sonho, comem tudo. Até o próprio Rafael, com açúcar mascavo. Trágico e sangrento.

É claro, apenas um pesadelo cruel. Rafael esconde ele pra si. Leva a vida numa boa, trabalhando muito, acordando cedo e dormindo tarde pra padaria funcionar bem e deixar todos felizes. Afinal, ele não que criar inimizades no bairro. E por via das dúvidas, deixa um estoque de sonhos prontinhos na dispensa, junto a explosivos, armas e uma rota de fuga que termina em Tijuana, México.

***

Nádia espirrou enquanto dirigia, quase atropelou uma senhorinha que caminhava pela calçada, mas se recuperou a tempo de jogar o carro pro acostamento. Ficou ali, estática. A senhora, aparvalhada, sentou-se no chão mesmo, ao lado do carro. As duas mulheres se encaram. Estavam a um espirro da tragédia. Nádia desfez o efeito hipnótico da cena por um segundo, quando sacudiu a cabeça e colocou as mãos trêmulas no volante. Mas antes de partir, um movimento a deteve. A senhorinha caminhou na direção ao carro. E estendeu um lenço pela janela aberta.

***

Há dezoito anos Anselmo atira aviõezinhos de papel do terraço do prédio. Começou com uma brincadeira de criança, agora é uma obsessão. Anselmo tenta acertar a janela da vizinha. Os aviões são feitos de cartas de amor. Elaborados como uma perfeição aerodinâmica de palavras delicadas e um desejo ardente de tê-la sob seu corpo, nua.

Porém, a janela dela fica a quase oitenta metros de distância. Os aviões morrem na calçada, nem ao menos passam perto. E essa é a desculpa que Anselmo usa pra si mesmo quando se olha no espelho, e sua consciência o castiga por nunca ter falado com ela.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Do tempo que passa e a gente não sabe pra onde vai, o maldito




Meu tempo cresce como os fios da minha barba. Desce pelo meu queixo sem se preocupar com passagem. Teimoso. Descuidado. É um tempo de tetos desconhecidos a cada vez que eu me deito pra dormir. Diabo sem lugar. Me faz rodar cidades, estados, países. Tempo é barba e tetos desconhecidos.

Eu olho dentro da tela do meu computador e só vejo páginas em branco. Pela casa têm calendários com as folhas de Agosto ainda presas. Penso no ano que vem. No resumo do meu ano que está morrendo. Nas malas formando barricadas na sala que avisam "cê tá aqui só de passagem, entendeu?". Na mesinha de centro, o tempo fez um guichê e carimbou meu passaporte outra vez. Será que eu tô escrevendo coisa com coisa?

O tempo foi pra um lugar onde eu não sei chegar, o tempo me trapaceou. Em Janeiro eu era menino, em Dezembro sou homem. O tempo tá de grace com my face e joga sinuca com a minha idade toda primeira quarta do mês. Hoje? Dois dias depois de anteontem. Meu Deus, onde foi parar meu tempo? Em Janeiro eu era menino. Menino. Agora eu contemplo a cidade que brilha silenciosa lá fora. E sinto tanta coisa boba pesando sobre mim...

Eu vejo os postes de luz passando pela janela enquanto estou deitado no banco de trás do carro da minha menina. Tem qualquer coisa que me acalma nisso. Me lembra das noites em que eu voltava de ônibus pra casa, depois de me aventurar em um dos desafios bestas da adolescência. Tem um relógio de parede que eu levo na bagagem. Ele faz um barulho que não deixa minha menina dormir direito, daí ela demora um monte se mexendo na cama. Mas nunca me pediu pra tirá-lo de lá. Eu odeio aquele relógio. Mas não consigo viver sem ele.

O tempo samba na cara da sociedade, salto agulha. Um dia desses saí pra comprar balinha e uma criança me chamou de tio. Decidi nunca mais comer doce. Aí eu te digo que tenho 22 e na verdade adoro minha idade. Não é engraçado esse troço de dois patinhos na lagoa? Eu acho e você tem que respeitar minha opinião. Droga. Que piada idiota eu vou poder fazer com 23? Minha barba ainda está crescendo. Os tetos continuam desconhecidos.

Vejo amigos que há tempos não via, mato saudades no tapa, canto músicas de outras épocas no chuveiro. Me sinto pronto pra qualquer coisa, mas só até secar o cabelo. É, eu sei. Ainda estou na idade em que ter cabelos molhados é sinônimo de liberdade. Algo como "eu faço o que quiser com minhas madeixas e quero ver o mundo me contrariar". Daí o cabelo seca e a rebeldia acaba. Sou um conformado dos cabelos secos.

Tenho cartão de crédito. Mas nunca tive o hábito de dar presentes. Então fico completamente sem graça quando ganho algum. É uma coisa fácil de se resolver, né? Vou parar de fazer pequenos dramas. No ano novo eu não vou comer doce, não vou abrir a geladeira pra pensar sobre a vida e vou dar presentes.

Tirei a barba pra enganar o tempo, não deu muito certo. Minha menina já chegou e agora tá lá embaixo me esperando, não tenho tempo pra perder. Agora quero de ano novo um teto que não seja mais desconhecido. Quero descobrir um teto simpático, engraçado. Não precisa ser rico, é só ter uma renda estável. Vou chamá-lo pra jantar no Dom Francisco, pagar um bom vinho e intimar:

- Vai ser minha casa de agora em diante?

Até lá minha barba vai ter crescido de novo.



sábado, 12 de novembro de 2011

men from the boys




Uma frase.

Eu estava lá, caminhando. Não que o "lá" seja desinteressante, é a segunda cidade do mundo que mais me encanta. Londres. A Londres dos esquilos na primavera. Eu desci as escadas do metrô, sorri ao ouvir a voz ao fundo que dizia calma e sedosamente:

Please mind the gap between the train and the station

Mãos nos bolsos que tava um pouco frio. Caminhava olhando pra baixo, pensando em um monte de coisa e em nada ao mesmo tempo. A importância do biscoito recheado pra raça humana, o quanto aeroportos são frios, desolados nacos da terra de ninguém. Daí um moço esbarrou em mim, pediu o polido/apressado "sorry" dele e foi-se embora, deixando o meu rosto levantado de surpresa. Não pelo esbarrão. O esbarrão só me fez olhar pro lado.

Lá estava. Uma frase pra mudar meu mundo. Em um cartaz enorme na estação de South Kesington, que não era propaganda nem nada, só um fundo branco de dois metros de altura por dois metros de largura que dizia...

men from the boys

E ao lado da frase, uma foto. Duas pernas finas de garoto com os pés dentro de sapatos de homem adulto. Foi um tiro no peito. Porque naquele momento, naquele instante eu vi que não era mais um menino. Não. Eu sou um homem agora. Feito.

men from the boys

A gente passa por num tanto de coisa no caminho da vida, não é? Sofri tanto quanto você nesse tempo todo de labuta. Tive minhas tragédias. Alguns dizem que foram grandes, outras disseram que não valeram de nada. Eu só digo que foram tragédias, como quaisquer outras. E daí eu sofri, como você já sofreu. E me levantei depois, me sentindo um bosta, como você se sentiu. Eu era um menino. Você também. Nós eramos meninos, eu e você, não nega, vai.

Crescemos. Precisei cruzar meio mundo e ver essas palavras impressas pra enxergar isso com a crueza necessária. Notei a falha entre o trem e a estação. Pequenos filmes de memória. Sabe? Aqueles feitos com VHS na sua cabeça de anos 90.

men from the boys

"Você consegue, Lucas. É metade menino e o dobro do homem." Não era isso que ela dizia? Era.

men from the boys

Compras do mês, contas pra pagar, expedientes e salários, responsabilidades e contar histórias. Amar. Amar aos borbotões. Corresponder ao mundo e, ainda assim, sem precisar de expectativas pra acabar com o coração. Nada disso me faz um homem. Me fiz homem com o tempo.
Minhas pernas já doiam depois de vinte minutos olhando pras pernas que balançavam. Minha cabeça fervilhava, a frase reverberava e ecoava. Se expandia pelo corpo. Até me preencher.

Me encontrei como homem adulto. Passei a ver a vida como um homem. E essa loucura de poses e privilégios em ser um homem. E aqueles pés de menino soltos.
Fui embora, entrei em um trem. As luzes piscavam como um farol que sinaliza o tempo, pro barco ao longe que vem pra terra. Sacudindo de leve, o som do vagão era um acumulado de murmúrios e sussurros. A frase foi se assentando no seu lugar e já preencheu a lacuna que eu tinha comigo mesmo. Só sobrou um pensamento bobo. Os pés do garoto. Hum. Alguns sapatos são mesmo difíceis de se preencher.

Please mind the gap between the train and station.



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Barulho




Eram 7h32 quando o barulho começou. A princípio, eu não me mexi da cama. Cedo demais. O sol, pra mim, só nasce lá pras 9h40 e tudo o mais antes disso é madrugada.

E o barulho continuava. Tá que sacode a janela. Não consegui definir o que acontecia. Eu ainda estava muito idiota de sono pra raciocinar. Só fiquei a escutar o tal do barulho e pensando comigo "que troço amaldiçoado é esse que não para nunca?!". Barulho sincopado. Parecia qualquer coisa como uma obra, mas em obra tem pausa. Obra tem um barulho mais violento. O barulho parecia uma praga do inferno. Obra é o próprio inferno. E o tal do barulho não parava.

Rolei pro outro lado da cama, agarrei o travesseiro e passei o dito por cima da cabeça. Não adiantou nada. O barulho parecia estar dentro de mim, quicando em pedaços. Ô tec-ploc do capeta, quem foi o Exú que te mandou!?

Tateei o criado-mudo a procura dos óculos. Esbarrei no abajur, que caiu no chão fazendo um barulho maior que o barulho que tava me aborrecendo. Achei celular, relógio, livro e finalmente os óculos. Droga, ainda peguei pela lente.

Coloquei nos olhos e firmei a vista. Vinha da janela, o zumbido mancumunado com o Cão. Menos que caminhar, cambaleei ou quase rastejei até lá. Abri a cortina devagar, pra não arder a vista. E lá estava.

Chuva. Ué, chuva?! É. Num é que era? Chuva. Chuva tem barulho bom. Hum.
Deitei na cama e voltei a dormir imediatamente. Feliz da vida. Adoro dormir com barulho de chuva.



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

[Info] A vida tá uma bagunça, me perdoa? Perdoa, vai?

Parece desculpa de escritor bêbado, mas tava sem condições físicas de colocar pensamentos em dia pra escrever.

Sexta-feira próxima isso muda!
;)

Quem sou eu

Minha foto
"O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato/ O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço/ O amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome/ O amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas/ O amor comeu metros e metros de gravatas/ O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus? O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos/ O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão/ Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte" - Dos Três Mal-amados, Palavras de Joaquim - João Cabral de Melo Neto